Durante o processo de alfabetização, as crianças constroem conhecimentos sobre a escrita, formulam hipóteses, fazem tentativas, observam regularidades e modificam suas formas de escrever à medida que compreendem melhor o funcionamento do Sistema de Escrita Alfabética (SEA).
Os estudos de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, especialmente a partir da obra Psicogênese da Língua Escrita, tiveram grande influência na maneira como professores e pesquisadores passaram a observar essas produções infantis.
Conhecer as hipóteses de escrita pode ajudar o professor a compreender o que a criança já sabe e, principalmente, a planejar intervenções que favoreçam novos avanços.
O que são os níveis ou hipóteses de escrita?
As escritas produzidas pelas crianças antes de dominarem convencionalmente o sistema alfabético não devem ser vistas apenas como uma sequência de “erros”.
Ao escrever espontaneamente uma palavra, a criança pode revelar o que está pensando sobre questões como:
- para que servem as letras;
- quantas letras são necessárias para escrever uma palavra;
- quais letras podem ser utilizadas;
- se a escrita representa características do objeto ou os sons da fala;
- quais relações existem entre partes faladas e partes escritas;
- como os sons das palavras podem ser representados por letras.
Por isso, observar como a criança escreve e como explica aquilo que escreveu oferece informações importantes para o planejamento pedagógico.
Tradicionalmente, essas construções são apresentadas na escola por meio de algumas hipóteses ou níveis de escrita.
1. Hipótese pré-silábica
Na hipótese pré-silábica, a criança ainda não estabeleceu de maneira sistemática a relação entre a escrita e os segmentos sonoros da palavra.
Ela já pode compreender que escrever é diferente de desenhar e utilizar letras ou outros sinais gráficos para representar aquilo que deseja escrever.
Dependendo de seu percurso, pode:
- utilizar letras conhecidas, principalmente as do próprio nome;
- repetir algumas letras;
- variar a quantidade e a ordem dos caracteres;
- considerar que são necessárias várias letras para que algo possa ser lido;
- relacionar, em alguns casos, o tamanho da escrita às características do objeto representado.
Exemplo
Ao ser convidada a escrever BORBOLETA, uma criança poderia registrar:
A M R T
E para BOI:
P L X
Essas produções não devem ser analisadas simplesmente como palavras “escritas errado”. Elas fornecem pistas sobre o que a criança já compreende acerca da escrita.
Como o professor pode intervir?
O professor pode proporcionar situações significativas de leitura e escrita, trabalhar com nomes próprios, listas, parlendas, cantigas, títulos de histórias, alfabetos móveis e comparação entre palavras.
Perguntas como “Onde está escrito?”, “Como você descobriu?” e “Essas duas palavras começam do mesmo jeito?” ajudam a criança a observar características da escrita.
TRANSIÇÃO:
– começa ater consciência de que existe alguma relação entre pronuncia e a escrita;
– começa a desvincular a escrita das imagens e os números das letras;
– conserva as hipóteses da quantidade mínima e da variedade de caracteres.
2. Hipótese silábica
Na hipótese silábica ocorre um avanço importante: a criança começa a estabelecer uma relação entre aquilo que fala e aquilo que registra.
Frequentemente, procura representar cada sílaba pronunciada com uma letra.
Por exemplo, para escrever:
CAVALO
poderia produzir:
C V L
ou
A A O
A escrita pode apresentar letras com ou sem correspondência sonora convencional.
Por isso, dentro das produções chamadas de silábicas podem ser observadas diferentes formas de representação.
Silábica sem valor sonoro convencional
A criança utiliza uma letra para representar cada sílaba, mas as letras escolhidas não necessariamente correspondem aos sons presentes na palavra.
Silábica com valor sonoro convencional
A criança continua utilizando, frequentemente, uma letra para cada sílaba, mas passa a escolher letras relacionadas aos sons que identifica.
Para BONECA, por exemplo, poderia escrever:
O E A
A criança já percebeu uma relação importante entre fala e escrita, embora ainda não represente todos os segmentos sonoros da palavra.
Como trabalhar?
São interessantes atividades que possibilitem:
- comparar palavras;
- perceber semelhanças sonoras;
- identificar sons iniciais e finais;
- analisar nomes próprios;
- utilizar alfabetos móveis;
- montar e desmontar palavras;
- completar palavras;
- trabalhar com rimas, parlendas e cantigas conhecidas.
O objetivo não é fazer a criança decorar uma forma de escrita, mas ajudá-la a observar cada vez mais atentamente as relações entre os sons da fala e sua representação gráfica.
3. Hipótese silábico-alfabética
A hipótese silábico-alfabética costuma aparecer como uma transição na qual a criança passa a perceber que uma única letra nem sempre é suficiente para representar uma sílaba.
Em uma mesma palavra, pode representar algumas partes de maneira mais completa e outras utilizando apenas uma letra.
Para escrever:
CAVALO
uma produção possível seria:
CAVLO
Nesse momento, a criança está ampliando a análise dos segmentos sonoros que compõem as palavras.
O que fazer nessa etapa?
O professor pode propor situações de análise e comparação que levem a criança a observar quais sons ainda não estão representados.
Algumas possibilidades são:
- escrita com alfabeto móvel;
- comparação entre a escrita da criança e outras palavras conhecidas;
- formação de novas palavras;
- análise de palavras que começam ou terminam de maneira semelhante;
- leitura e escrita de pequenos textos conhecidos;
- reflexão sobre as correspondências entre sons e letras.
4. Hipótese alfabética
Na hipótese alfabética, a criança compreende um princípio fundamental do nosso sistema de escrita: os segmentos sonoros das palavras podem ser representados por letras.
Isso, entretanto, não significa que o processo de alfabetização esteja concluído.
A criança pode escrever alfabeticamente e ainda apresentar questões ortográficas.
Por exemplo:
CASA → CAZA
GIRAFA → JIRAFA
Essas produções mostram que a criança já compreendeu muito sobre o funcionamento alfabético da escrita, mas ainda precisa aprender as convenções ortográficas da Língua Portuguesa.
A partir daí, o trabalho continua envolvendo leitura, produção de textos, ortografia, fluência, compreensão, ampliação do vocabulário e conhecimento dos diferentes gêneros textuais.
Hipótese alfabética não significa alfabetização completa
Esse é um ponto muito importante.
Identificar que uma criança apresenta escrita alfabética não significa considerar encerrado o processo de alfabetização.
Alfabetizar envolve muito mais do que escrever palavras isoladas.
Espera-se que o estudante avance progressivamente na capacidade de ler, compreender e produzir textos, utilizando a escrita em diferentes situações sociais.
Nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental, o trabalho pedagógico deve proporcionar amplas oportunidades para a apropriação do sistema de escrita alfabética articulada às práticas de leitura e escrita.
Como identificar a hipótese de escrita da criança?
Uma possibilidade utilizada no contexto escolar é realizar uma sondagem de escrita.
O professor pode solicitar que a criança escreva espontaneamente algumas palavras e uma frase, evitando simplesmente oferecer um modelo para cópia.
Mais importante do que atribuir rapidamente um “nível” é observar:
O que a criança escreveu?
Quais letras escolheu?
Que relação estabeleceu entre fala e escrita?
Como realizou a leitura da própria produção?
Que conhecimentos já demonstra?
Que desafios podem ajudá-la a avançar?
Essas observações podem ser registradas ao longo do ano e utilizadas no planejamento das intervenções pedagógicas.
A sondagem não deve servir para rotular a criança
As hipóteses de escrita são ferramentas para ajudar o professor a compreender processos de aprendizagem — não rótulos permanentes.
Crianças aprendem de maneiras e em ritmos diferentes.
Além disso, uma única produção não deve ser utilizada isoladamente para definir todo o conhecimento de um estudante.
A avaliação precisa ser contínua e considerar diferentes situações de leitura e escrita.
O mais importante não é simplesmente registrar em uma ficha que a criança está “pré-silábica”, “silábica” ou “alfabética”.
A pergunta pedagógica fundamental é:
O que essa criança já sabe sobre a escrita e quais experiências e intervenções podem ajudá-la a avançar?
O papel do professor no processo de alfabetização
Conhecer as hipóteses apresentadas pelas crianças pode contribuir para um planejamento mais intencional.
Ao mesmo tempo, a alfabetização exige ensino sistemático e oportunidades frequentes de leitura e escrita.
O professor pode articular:
- ensino das relações entre letras e sons;
- desenvolvimento da consciência fonológica;
- leitura diária;
- escrita de palavras, frases e textos;
- literatura infantil;
- produção coletiva e individual de textos;
- contato com diferentes gêneros textuais;
- reflexão sobre o Sistema de Escrita Alfabética;
- intervenções adequadas às necessidades de cada criança.
Assim, observar as hipóteses infantis não substitui o ensino. A observação serve justamente para ajudar o professor a decidir o que ensinar e como intervir.
Alfabetização e letramento
Aprender o sistema alfabético e participar de práticas reais de leitura e escrita são processos que precisam caminhar juntos.
A criança precisa compreender progressivamente como a escrita funciona, mas também descobrir para que lemos e escrevemos.
Bilhetes, histórias, listas, receitas, poemas, convites, notícias, parlendas e outros gêneros permitem que a aprendizagem aconteça em situações com significado.
Em resumo
Os níveis ou hipóteses de escrita ajudam o professor a observar diferentes formas pelas quais a criança procura compreender o sistema de escrita.
De maneira bastante conhecida no contexto escolar, encontramos as hipóteses:
Pré-silábica → Silábica → Silábico-alfabética → Alfabética
Entretanto, essa sequência não deve ser utilizada como uma tabela rígida para classificar crianças.
Mais importante do que descobrir “em qual nível” o estudante está é compreender o que sua escrita revela sobre aquilo que já aprendeu e utilizar essa informação para planejar boas situações de ensino.
A alfabetização é um processo complexo, e o acompanhamento atento do professor, aliado ao ensino intencional da leitura e da escrita, é fundamental para que cada criança avance.
Referências para aprofundamento
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular — Ensino Fundamental.
BRASIL. Ministério da Educação. Materiais de formação e avaliação em alfabetização.
INEP. Avaliação da alfabetização e Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
Conteúdo originalmente publicado no Ensinar Aprender em 2011 e revisado e ampliado em agosto de 2026.
meta description: Conheça os níveis de desenvolvimento da escrita: pré-silábico, silábico, silábico-alfabético e alfabético, com exemplos e orientações para professores.





Muito legal a sua inciativa, Patrícia!Quando comecei a carreira, há 11 anos, conhecer os níveis de escrita da criança foi um divisor de águas pra mim! Fiquei fascinada em perceber quanta coisa meu aluno sabia sobre a escrita.Desde então me tornei uma apaixonada pela alfabetização. Atuo no 1º segmento do Ensino Fundamental na rede pública do Rio de Janeiro, sou formada em Letras e recentemente concluí o Mestrado em Linguística, pesquisando os atuais livros de alfabetização. Fico feliz quando vejo alfabetizadoras com você multiplicando o conhecimento prático e teórico que tem, ajudando colegas a se capacitarem em uma profissão, mais que isso, em uma missão tão importante e valorosa como a nossa!Parabéns!!p.s. Você me incentivou a fazer um blog…é uma forma bem legal de compartilhar nossas experiências e saberes! 🙂 Grande abraço, Raquel Oliveira do Nascimento
Muito legal a sua inciativa, Patrícia!Quando comecei a carreira, há 11 anos, conhecer os níveis de escrita da criança foi um divisor de águas pra mim! Fiquei fascinada em perceber quanta coisa meu aluno sabia sobre a escrita.Desde então me tornei uma apaixonada pela alfabetização. Atuo no 1º segmento do Ensino Fundamental na rede pública do Rio de Janeiro, sou formada em Letras e recentemente concluí o Mestrado em Linguística, pesquisando os atuais livros de alfabetização. Fico feliz quando vejo alfabetizadoras com você multiplicando o conhecimento prático e teórico que tem, ajudando colegas a se capacitarem em uma profissão, mais que isso, em uma missão tão importante e valorosa como a nossa!Parabéns!!p.s. Você me incentivou a fazer um blog…é uma forma bem legal de compartilhar nossas experiências e saberes! 🙂 Grande abraço, Raquel Oliveira do Nascimento
Adorei seu blog. parabéns!
Adorei seu blog. parabéns!
Valeu Patricia vai me ajudar muito. Fico feliz por vc ser uma pessoa que compartilha seus conhecimentos não fica só para si. PARABÉNS! CONTINUE ASSIM QUE DEUS TE ABENÇÕE HOJE E SEMPRE.
Obrigado, Patrícia, você se preocupou em trazer exemplos, muito bom ! Parabéns, vou divulgar seu blog com muito prazer.
Muito obrigado! foi muito bem elaborado as explicações.
muito bom ter ideia de alfabetizar com os conhecimentos da escrita . torna o trabalho mais prazeroso.
amei, estou fazendo pedagogia queria mais!!!
Amei Professora Patricia estou fazendo Pedagogia queria maissssss!!! Abraços
Você vai nos mandar mais? Estou esperando Abençoada.
Obrigada por compartilhar conosco os seus conhecimentos. Valeu.
Muito legal a sua inciativa, Patrícia!Quando comecei a carreira, há 11 anos, conhecer os níveis de escrita da criança foi um divisor de águas pra mim! Fiquei fascinada em perceber quanta coisa meu aluno sabia sobre a escrita.Desde então me tornei uma apaixonada pela alfabetização. Atuo no 1º segmento do Ensino Fundamental na rede pública do Rio de Janeiro, sou formada em Letras e recentemente concluí o Mestrado em Linguística, pesquisando os atuais livros de alfabetização. Fico feliz quando vejo alfabetizadoras com você multiplicando o conhecimento prático e teórico que tem, ajudando colegas a se capacitarem em uma profissão, mais que isso, em uma missão tão importante e valorosa como a nossa!Parabéns!!p.s. Você me incentivou a fazer um blog…é uma forma bem legal de compartilhar nossas experiências e saberes! 🙂 Grande abraço, Raquel Oliveira do Nascimento
Muito legal a sua inciativa, Patrícia!Quando comecei a carreira, há 11 anos, conhecer os níveis de escrita da criança foi um divisor de águas pra mim! Fiquei fascinada em perceber quanta coisa meu aluno sabia sobre a escrita.Desde então me tornei uma apaixonada pela alfabetização. Atuo no 1º segmento do Ensino Fundamental na rede pública do Rio de Janeiro, sou formada em Letras e recentemente concluí o Mestrado em Linguística, pesquisando os atuais livros de alfabetização. Fico feliz quando vejo alfabetizadoras com você multiplicando o conhecimento prático e teórico que tem, ajudando colegas a se capacitarem em uma profissão, mais que isso, em uma missão tão importante e valorosa como a nossa!Parabéns!!p.s. Você me incentivou a fazer um blog…é uma forma bem legal de compartilhar nossas experiências e saberes! 🙂 Grande abraço, Raquel Oliveira do Nascimento
Adorei seu blog. parabéns!
Adorei seu blog. parabéns!
Valeu Patricia vai me ajudar muito. Fico feliz por vc ser uma pessoa que compartilha seus conhecimentos não fica só para si. PARABÉNS! CONTINUE ASSIM QUE DEUS TE ABENÇÕE HOJE E SEMPRE.
Obrigado, Patrícia, você se preocupou em trazer exemplos, muito bom ! Parabéns, vou divulgar seu blog com muito prazer.
Muito obrigado! foi muito bem elaborado as explicações.
muito bom ter ideia de alfabetizar com os conhecimentos da escrita . torna o trabalho mais prazeroso.
amei, estou fazendo pedagogia queria mais!!!
Amei Professora Patricia estou fazendo Pedagogia queria maissssss!!! Abraços
Você vai nos mandar mais? Estou esperando Abençoada.
Obrigada por compartilhar conosco os seus conhecimentos. Valeu.